As experiências vividas determinam, em grande medida, nossas escolhas atuais e quem nos tornamos. Ontem, declarei-me a um amor e hoje estou ligado — ou não — a esse amor. Na juventude, decidi estudar medicina e hoje exerço a profissão. No entanto, costumamos fazer essas conexões pensando principalmente na juventude e na fase adulta. Vivemos em uma sociedade focada na juventude e adultocêntrica, que valoriza e visibiliza mais esse “eu” jovem e produtivo. Queremos nos tornar esse eu visível e admirado.
Mas e o outro eu? Aquele que serei daqui a 10, 20, 30 ou 40 anos? Por que se conectar com um eu que, na nossa cultura, tende a ser invisível, discriminado e desvalorizado? Qual a importância dessa conexão?
Diversos estudos mostram que, quanto mais nos sentimos ligados ao nosso eu futuro, melhor cuidamos dele. Essa ligação influencia diretamente a forma como envelhecemos: de maneira mais saudável, participativa e satisfeita. Quando há conexão, aceitamos melhor esse eu futuro e resistimos mais às desvalorizações e discriminações. Reconhecemos nosso valor intrínseco, nossa importância e o que ainda somos capazes de fazer e contribuir. Deixamos de nos fixar apenas no exterior (aparência, produtividade) e passamos a valorizar o que realmente importa: ética, atitudes, aprendizados acumulados e sentimentos compartilhados.
Essa conexão com o eu futuro deve começar cedo, mas nunca é tarde para cultivá-la. Ela exige trabalho interno: aceitação, desconstrução de estereótipos etários e, sobretudo, empatia — com os outros, mas principalmente conosco mesmos. Os benefícios são imensos: melhor saúde física, mental e social; menos conflitos internos; e maior realização pessoal.
Para desenvolver essa conexão, várias técnicas são eficazes. Uma delas é escrever uma carta para o seu eu-futuro, descrevendo quem você é hoje, como se sente e como gostaria de estar daqui a 10 ou 20 anos. Outra é usar aplicativos ou ferramentas que envelhecem sua foto digitalmente — o que ajuda a visualizar e aceitar as transformações, além de motivar a traçar estratégias concretas no presente para chegar ao eu desejado. Tudo isso com muita empatia.
Você pensa no seu eu-futuro? Com que frequência? Muitos fatores influenciam um envelhecimento saudável, mas um deles — que frequentemente negligenciamos ou esquecemos — é justamente essa conexão com o eu que não quer ser esquecido, isolado ou discriminado.
Referências Bibliográficas
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3. Kornadt, A. E., Voss, P., & Rothermund, K. (2015). Hope for the best, prepare for the worst? Future self-views and preparation for age-related changes. *Psychology and Aging*, 30(4), 967-975.