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O Brasil mudou de idade: a força política da geração 60+

Vamos falar do VOTO 60+?

O Brasil vive uma das maiores transformações demográficas de sua história — e talvez uma das mais silenciosas.

A combinação entre a queda acelerada da natalidade e o aumento da longevidade está mudando profundamente a composição da sociedade brasileira. Segundo as projeções demográficas, a partir de 2041 nossa população começará a diminuir.

Enquanto isso, a população com 60 anos ou mais cresce em ritmo acelerado. Hoje, os chamados “prateados” somam cerca de 35 milhões de pessoas. Em 2050, serão aproximadamente 64 milhões, passando de 16% para 31% da população brasileira.

Trata-se de uma taxa de crescimento anual composta de 2,44%.

Esses números estão, aos poucos, entrando no radar da sociedade, das empresas, das instituições públicas e privadas e dos agentes políticos. Mas nem sempre foi assim.

Quando comecei a me interessar pelo tema, no final de 2016, era raro encontrar espaço para o envelhecimento populacional nos jornais, revistas ou programas de televisão. Quase dez anos depois, a conscientização aumentou significativamente.

As ações concretas, porém, ainda caminham em ritmo lento.

A invisibilidade da população 60+ continua presente. O idadismo segue forte em diferentes esferas da sociedade. E o setor público ainda parece atrasado na compreensão das necessidades, desejos e potencialidades dessa parcela crescente da população.

Este artigo propõe uma reflexão inicial sobre uma questão cada vez mais relevante: como o envelhecimento da população poderá influenciar a política brasileira, o poder do voto e o desenho das futuras políticas públicas?

O crescimento do eleitorado 60+

À medida que a população envelhece, cresce também o peso eleitoral das pessoas mais velhas.

Isso significa um aumento potencial de influência política.

Potencial porque influência não surge automaticamente dos números. Para que ela se transforme em mudanças reais, é necessário conhecimento, organização, planejamento e ação coletiva.

Os brasileiros 60+ precisarão organizar demandas, fortalecer canais de diálogo com gestores públicos, ocupar espaços de participação social, cobrar resultados de forma persistente e apoiar propostas consistentes.

Mais do que nunca, será necessário demonstrar protagonismo.

O envelhecimento populacional não deve significar apenas mais anos de vida. Deve significar mais voz, mais participação e mais capacidade de contribuir para a construção do futuro.

O Brasil mudou de idade

As evidências dessa transformação aparecem com clareza nos dados eleitorais.

Segundo estudo recente do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, entre 1992 e 2024 o número de eleitores com 60 anos ou mais passou de aproximadamente 9,5 milhões para 34,2 milhões.

Em termos proporcionais, esse grupo saltou de 10,5% para 21,9% do eleitorado nacional.

Entre os brasileiros com 70 anos ou mais, o crescimento foi ainda mais expressivo: de 3,4 milhões para 15,2 milhões de eleitores, representando quase 10% de todo o eleitorado.

Enquanto isso, os jovens entre 16 e 24 anos seguiram o caminho oposto. Em 1992 representavam 23,8% dos eleitores. Em 2024 passaram a representar apenas 12,9%.

Os números mostram algo simples e profundo: o Brasil mudou de idade.

E quando um país muda de idade, suas prioridades também mudam.

O voto grisalho não é detalhe

Durante décadas, o envelhecimento foi tratado quase exclusivamente como um tema relacionado à Previdência, à saúde ou à assistência social.

Como se as pessoas mais velhas só entrassem no debate público quando se falava de aposentadoria, doenças ou dependência.

Esse olhar ficou para trás.

Hoje, a população 60+ é uma força social, econômica e política.

É um grupo diverso, ativo e presente nas famílias, nas comunidades, nas organizações religiosas, nas associações, nas redes sociais e, naturalmente, nas urnas.

O voto das pessoas mais velhas não deve ser interpretado como um voto voltado para o passado.

Muitas vezes, ele representa justamente o contrário: responsabilidade com o futuro.

Quem já atravessou crises econômicas, hiperinflação, mudanças de governo e transformações sociais tende a observar o cenário político com outra perspectiva.

Há menos espaço para promessas vazias e mais atenção à estabilidade, à segurança, ao custo de vida, à saúde e à confiança nas instituições.

A grande provocação

A pergunta que merece reflexão é simples:

O que acontece quando um país envelhece, mas continua tomando decisões como se fosse jovem?

Se o Brasil não ouvir sua população mais velha, corre o risco de se tornar um país mais caro, mais desigual e mais distante da própria realidade demográfica.

Teremos famílias sobrecarregadas, sistemas de saúde pressionados, cidades inadequadas para a mobilidade, empresas perdendo oportunidades de mercado e governos falando para um eleitor que já mudou.

O que está em jogo em 2026

As eleições de 2026 acontecerão em um país mais envelhecido, mais feminino e com uma composição eleitoral bastante diferente daquela observada em décadas anteriores.

Ao mesmo tempo, o Brasil vive um ambiente de forte polarização política.

Enquanto a disputa entre direita e esquerda ocupa grande parte do debate público, temas estruturais de longo prazo acabam recebendo menos atenção do que deveriam.

Questões como envelhecimento populacional, sustentabilidade da Previdência, planejamento urbano, saúde preventiva e preparação das futuras gerações para uma sociedade longeva raramente ocupam o centro das discussões.

Mas deveriam.

O crescimento do eleitorado 60+ tem potencial para influenciar agendas, prioridades, discursos e resultados eleitorais.

O que os 60+ esperam da política?

Não basta incluir pessoas sorridentes em peças de campanha ou repetir promessas genéricas sobre respeito aos idosos.

A população 60+ não precisa de condescendência.

Precisa de políticas públicas sérias, sustentáveis e capazes de produzir resultados concretos.

Mais do que isso: muitas pessoas dessa geração não estão pensando apenas em si mesmas.

Estão pensando nos filhos, netos e bisnetos.

Querem deixar um legado.

Um exemplo interessante apareceu na pesquisa Bússola 60+, realizada em 2021 para Globo, Givaudan e Agibank, em parceria com SeniorLab e Raízes Desenvolvimento Sustentável.

O estudo revelou que os brasileiros 60+ demonstram preocupação com temas ambientais em níveis superiores aos observados em gerações mais jovens.

O dado ajuda a derrubar um estereótipo importante: o de que pessoas mais velhas só se preocupam com questões imediatas.

Na prática, muitos estão pensando no futuro do planeta e das próximas gerações.

Chegou a hora de discutir o futuro

O envelhecimento da população não é um problema.

É uma conquista da humanidade.

O desafio está em preparar a sociedade para viver bem essa conquista.

Isso exige planejamento, responsabilidade fiscal, visão de longo prazo e políticas públicas consistentes.

Também exige abandonar soluções simplistas, populistas ou assistencialistas.

Boas propostas precisam explicar como serão financiadas, como serão mantidas ao longo do tempo e quais resultados pretendem alcançar.

O Brasil está envelhecendo rapidamente.

A pergunta é: estamos nos preparando para isso?

Segurança: uma pauta para todas as gerações

Entre os temas prioritários para uma sociedade que envelhece, a segurança merece destaque.

E não apenas a segurança relacionada à criminalidade.

Ela envolve desde o medo crescente de assaltos e furtos até aspectos fundamentais da mobilidade urbana.

Em São Paulo, por exemplo, a cidade mais rica da América Latina ainda convive com calçadas esburacadas, desniveladas e pouco acessíveis. A sinalização urbana frequentemente é insuficiente ou mal conservada.

Resolver esses problemas beneficia toda a população.

Crianças, jovens, adultos e idosos.

Uma cidade amigável para quem tem 80 anos é, quase sempre, uma cidade melhor para quem tem 8.

E talvez essa seja uma das principais lições do envelhecimento populacional: quando planejamos para os mais velhos, melhoramos a vida de todos.

  1. Saúde: política de prevenção, com atendimento adequado, profissionais treinados para ter engajamento mais eficaz e mais eficiente; expansão da telemedicina, com vistas à prevenção; médicos mais bem treinados no serviço público para atender às mulheres nas questões pertinentes à menopausa. Aqui também as soluções podem atingir todas as populações: são transgeracionais. 
  1. Transporte: já melhorou muito, mas é ainda preciso conscientizar mais a população sobre os direitos dos 60+: em trem / ônibus cheio, assento prioritário é lei, e deve ser usado por quem efetivamente tem esse direito. O mesmo com as vagas de automóveis para idosos, frequentemente ocupadas por quem não deveria. Maior conscientização, maior educação e maior vigilância resultam em menos abuso. A campanha #SouMaisSessenta (concebida pela USP60+ em 2020 e da qual a Ativen também participou), com ampla presença nos metrôs foi um sucesso, mas é preciso continuidade. 
  1. Renda: o governo federal pode e deve fazer mais e melhor. Uma ideia é a eliminação ou redução da tributação das aposentadorias abaixo de um determinado valor – talvez reduzindo do Bolsa Pescador (haja pescador artesanal neste país), ou sendo mais firme no controle do Bolsa Família; programas para melhorar a literacia digital dos 60+ de baixa renda, que vivem mais isolados em comunidades, mas associando esse programa a alguma forma de empreendedorismo que resultasse no uso efetivo das habilidades aprendidas, aumentasse a autoestima, e  permitisse um mínimo de autossustentabilidade do programa. 
  1. Educação: como aproveitar o estoque de conhecimento 60+ e aprimorá-lo com cursos de atualização que permitam o bom aproveitamento desta mão de obra de forma a melhorar a economia das pessoas, das famílias, e do país? A USP60+ já faz um trabalho exemplar, porém por que a iniciativa não se estende para as universidades privadas? Por que não criar um FIES para os 60+? Mas um FIES sério, que não cause os rombos bilionários para o orçamento público da fase 2010 a 2014 (transição do governo Lula para o governo Dilma), onde os verdadeiros beneficiados foram as instituições de ensino superior, que conseguiram reduzir a praga da inadimplência, coberta pelo governo. Não deu em outra: gerou um prejuízo fenomenal pelo qual todos os brasileiros ainda estão pagando: populismo não, planejamento sim. 
  1. Cuidado: onde estão as ILPIs que deveriam ser providenciadas pelos governos federal, estatal e municipal? Por que essas 3 esferas não trabalham em conjunto? Será que é consequência daquele conflito de interesses “direita x esquerda” que impede que a população seja bem atendida? 
  1. Regularização da profissão de cuidador, que já está atrasadíssima! Ouvi dizer que é um lobby do sindicato dos enfermeiros, será que é verdade? Espero que seja “fake news”. Mas, seja como for, deve-se endereçar a questão de forma objetiva e rápida, para que uma profissão necessária para a sociedade seja efetivamente reconhecida e haja uma melhoria nas condições de trabalho e na formação deste relevante grupo.  
  1. Previdência: precisamos resolver esse tema – é uma bolha que está prestes a explodir, não é problema para a próxima década: é para já. Os governantes estão falando sobre isso de forma séria? O Governo Federal parece negligenciar esse tema, e não é de hoje. Também o Congresso acaba de propor uma pauta-bomba que inflará o prejuízo das contas públicas de forma devastadora. Executivo e Legislativo se unindo para piorar (ainda mais) as contas da nação? A bomba não explodirá somente nas mãos dos filhos, netos e bisnetos (como se isso por si só não fosse muito grave): ela já está prestes a explodir, dificultando o corte de juros (a famosa Selic), atrapalhando o desenvolvimento sustentável da nação e mais objetivamente, empobrecendo toda a população. 

Esses são apenas alguns dos muitos temas que carecem de discussão, para cuja solução a voz dos 60+ precisa ser ouvida. Para isso, conclamo a todos os 60+ para se unirem em movimentos e grupos e se organizarem, como já é o caso do Trabalho60+ e do Lab60; e, ainda bem, existem muitos outros, sérios e éticos. “A união faz a força” é uma verdade que torna os processos mais rápidos e eficazes. Precisamos de líderes sérios, de ambos os lados: dentre os políticos e dentre os grupos de 60+. Temos que estar atentos para os oportunistas de plantão.  O verdadeiro líder é abnegado, entende que a causa é maior do que si, seu ego vem depois, muito depois.  É disso que o país precisa: de cidadãs e cidadãos éticos, íntegros e dedicados. Não será fácil, nunca foi, mas não podemos deixar de perseguir esse ideal. Enquanto o dia de votar não chega, digo aos 60+: prepararem os planos, examinem as propostas, unam-se e assumam seu merecido protagonismo.  

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