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Cinco Regras para Envelhecer com Coragem

Tenho um cliente de 103 anos, meu cliente mais “novo” em espírito! Há quatro meses, nos encontramos semanalmente para conversar sobre como “está a vida” e jogar damas. E, no que diz respeito a damas, o senhor Gomide é imbatível. Em 60 partidas, venci apenas oito. Não acho que sou tão ruim assim (ou será que sou?). Confesso que isso me intriga.

A capacidade de raciocínio estratégico e a determinação de vencer são grandes qualidades do senhor Gomide. A cada movimento dele, fico me perguntando no que está pensando alguém com tanta experiência de vida. Centenários estão, de certa forma, “na moda” e nos trazem reflexões profundas, especialmente quando chegam a essa idade com saúde. O que mais impressiona no senhor Gomide é a preservação de suas habilidades cognitivas. Ele costuma dizer, com um sorriso, que pessoas de 60 ou 70 anos são “ainda meninos, com muito a aprender na vida”. Para ele, com 30 ou 40 anos a mais, essa “moçada” está apenas começando. Suas histórias são um espetáculo à parte: com paciência, você o ouvirá conectar passado e presente em um fluxo contínuo, sem pausas, com uma memória que parece desafiar o tempo.

O senhor Gomide está se preparando para o que chama de “a grande hora de Deus”, e o faz com serenidade e alegria. Durante o dia, come, dorme, ouve seu forró, organiza seus pertences, conversa bastante com sua cuidadora — a única pessoa com quem divide a casa — e aguarda minha visita semanal. Ele me chama de “amiga dos velhos” e, brincando, comenta: “Você tem a paciência que eu não tenho… velho dá muito trabalho”. Ele sabe do que fala. Devido à dificuldade auditiva, conversar às vezes é um desafio, então ele fala, e muito.

Como o senhor Gomide, aos 103 anos, mantém esse sorriso e essa satisfação com a vida? Após tantas histórias de sucessos e fracassos, vitórias e derrotas, alegrias e tristezas, como ele encontra equilíbrio? Afinal, é possível evitar os contrastes da existência? Viver plenamente parece ser para poucos — não para escolhidos, mas para os que decidem enfrentar o jogo da vida com tolerância e paciência, acumulando pequenas vitórias dia após dia.

Vivemos em um tempo em que valores se confundem: amor é tomado por apego, e felicidade, por bens materiais. Talvez, no “paraíso” imaginado, as coisas sejam diferentes. Quem sabe a velhice, ou a percepção dela, nem exista de fato? À medida que o tempo avança, deixando tantas coisas para trás, o futuro pode parecer limitado pela inevitabilidade da morte. Em um instante, surgem perguntas: “Quanto vale uma vida inteira?” ou “O que significa viver plenamente? É ter mais anos ou viver com mais intensidade?”

Envelhecer exige coragem. Mais que isso, viver uma vida inteira — seja ela de 60, 70, 80 anos ou mais — demanda coragem. E, se a vida se estende além, é preciso ainda mais força para sustentar os dias em que trabalhar, ganhar dinheiro ou passear já não fazem tanto sentido. Nessa fase, talvez reste um tabuleiro de damas, mas a principal ocupação será refletir sobre o que foi vivido e o que, de fato, levaremos daqui.

Inspirado no exemplo do senhor Gomide, aqui estão cinco regras que podem guiar uma vida longa e plena:

  1. Cultive a paciência com você e com os outros
    Envelhecer é um processo que exige aceitar as limitações do corpo e da mente. Seja gentil consigo mesmo e com quem o cerca, reconhecendo que cada fase da vida tem seu ritmo próprio.
  2. Mantenha a mente ativa
    Atividades como jogar damas, ler ou contar histórias, como faz o senhor Gomide, ajudam a preservar a agilidade mental. Desafie-se a aprender algo novo, mesmo que pequeno, em cada etapa da vida.
  3. Valorize as conexões humanas
    As conversas com sua cuidadora e minhas visitas semanais são pontos altos na rotina do senhor Gomide. Relacionamentos, mesmo simples, trazem sentido e alegria à vida.
  4. Aceite as contradições da existência
    Sucessos e fracassos, alegrias e tristezas fazem parte do caminho. Encare-os com serenidade, como o senhor Gomide, que sorri diante das dualidades da vida.
  5. Encontre propósito nas pequenas coisas
    Ouvir forró, organizar pertences ou aguardar uma visita podem parecer simples, mas são atos que dão estrutura e significado aos dias. Descubra o que lhe traz paz e pratique-o.

Conclusão

A história do senhor Gomide nos ensina que envelhecer com coragem não é apenas uma questão de tempo, mas de atitude. Viver plenamente exige enfrentar cada dia com resiliência, aceitando as perdas e celebrando as pequenas vitórias. A velhice não é o fim, mas uma oportunidade de refletir sobre o que realmente importa: as memórias construídas, os laços cultivados e a paz encontrada no presente. Que possamos, como o senhor Gomide, jogar o jogo da vida com garra, paciência e um sorriso no rosto, independentemente da idade.

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