Por que o tempo parece tratar os dois sexos de forma tão desigual? Os dados do IBGE, a biologia evolutiva e a reflexão sobre os papéis sociais se encontram neste texto.
Se o envelhecimento fosse apenas o desgaste de uma máquina, homens e mulheres envelheceriam do mesmo jeito. Não envelhecem. E essa assimetria não é um acidente da natureza: é a assinatura de dois modos diferentes de existir no tempo.
Os números que deveriam nos constranger
Comecemos pelos dados. Segundo as Taxas de Mortalidade de 2024 do IBGE, a expectativa de vida ao nascer no Brasil chegou a 76,6 anos: 73,3 anos para os homens e 79,9 anos para as mulheres. São quase sete anos de diferença. E a assimetria não se esgota aí. Quem chega aos 80 anos ainda carrega o desnível: mais 9,5 anos de vida esperam as mulheres, contra 8,3 anos para os homens.
O dado mais intrigante, porém, é outro: embora vivam mais, as mulheres adoecem mais. Relatam mais dor, preenchem mais consultórios, acumulam mais incapacidade no fim da vida. Os demógrafos chamam isso de paradoxo da mortalidade: viver mais e sofrer mais, ao mesmo tempo. Uma revisão global publicada em 2024 no Lancet Public Health, repercutida pelo BMJ, confirma que as diferenças de saúde entre homens e mulheres começam na adolescência e crescem ao longo de toda a vida.
A biologia: dois orçamentos evolutivos
Há uma leitura biológica, e ela é bela. A mulher carrega dois cromossomos X, uma redundância que funciona como um manuscrito de reserva: se uma cópia falha, há outra para ler. O homem carrega um X e um Y, um texto único, sem rascunho.
O gerontólogo Tom Kirkwood formulou a teoria do soma descartável: o corpo é um investimento, e gastamos energia em manter a máquina ou em reproduzir. Na maioria das espécies, a fêmea é o sexo que mais investe na prole, então a seleção natural a pressionou a conservar o corpo por mais tempo. Um estudo de 2024, publicado na Springer, mostrou que os fatores específicos de cada sexo influenciam diretamente o envelhecimento biológico, da suscetibilidade a doenças à longevidade. E uma pesquisa do Instituto Max Planck, de 2025, analisando 1.176 espécies, encontrou um padrão consistente: em mamíferos, as fêmeas vivem em média 13% mais que os machos, e a competição por acasalamento costuma custar caro a eles.
Como sintetizou Steven Austad, um dos maiores especialistas mundiais em longevidade: “a diferença sexual na longevidade pode ser uma das características mais robustas da biologia humana”.
É como se a evolução tivesse feito dois orçamentos: um para a duração, outro para a intensidade. O homem foi desenhado para gastar: mais massa muscular, mais testosterona, mais risco, mais embate. A mulher, para administrar: estrogênio protegendo o coração, um sistema imune que responde com mais vigor, telômeros que encurtam mais devagar. Uma revisão de 2024, de García e colaboradores, mostrou que os marcadores moleculares do envelhecimento, como instabilidade genômica e encurtamento de telômeros, se manifestam de forma diferente em cada sexo.
O paradoxo que a ciência ainda estuda
Aqui mora o enigma que escapa à ciência: por que o sexo que carrega a vida é o que mais demora a morrer? Um estudo publicado na eLife mostrou que, medidos por biomarcadores moleculares, as mulheres apresentam idade biológica menor que a dos homens. Mas, no fim da vida, são elas as mais frágeis, enquanto os homens ainda se saem melhor em testes de função física.
Há quem leia isso como um mistério estatístico. Há quem leia como um espelho: a vida, para as mulheres, sempre foi menos um bem a conquistar e mais uma tarefa a sustentar. O corpo que aprendeu a hospedar outro tempo, o tempo da gestação, parece ter adquirido uma paciência que o outro corpo desconhece.
O tempo que não está no DNA: a biografia
Reduzir tudo a cromossomos seria trair a pergunta. Há também o tempo social. A velhice de um homem e a velhice de uma mulher são experiências distintas porque foram construídas ao longo de décadas de papéis distintos.
O homem muitas vezes envelhece em queda livre: aposentou-se, perdeu o posto, e com ele a identidade. A mulher envelhece em continuidade, porque sua vida foi tecida de cuidado, e o cuidado não se aposenta. Simone de Beauvoir, em A Velhice, escreveu que a sociedade trata o velho como um estrangeiro. Seria preciso acrescentar que esse estrangeiro tem sexo. A velhice feminina é frequentemente apagada, invisibilizada; a masculina, frequentemente vazia, desprovida de função.
O geriatra brasileiro Alexandre Kalache, referência mundial em envelhecimento, insiste há décadas em um ponto: envelhecer bem é projeto de vida inteira, não de fim de linha. E esse projeto é diferente para cada sexo, porque os riscos, os hábitos e as cobranças sociais também são.
O que isso significa para quem tem 60+
Se homens e mulheres envelhecem diferente, é porque viveram diferente. Mas a biologia não é um destino: é um ponto de partida. A diferença de quase sete anos entre os sexos no Brasil não vem só dos cromossomos; vem também do que fazemos com eles. Homens morrem mais cedo, em boa parte, por cuidar menos de si: menos check-ups, menos atenção à saúde mental, mais tabaco, mais álcool, mais direção imprudente. Mulheres vivem mais, mas sofrem mais com solidão na velhice, sobrecarga de cuidado e invisibilidade.
O envelhecimento não é apenas um relógio biológico, é a biografia que se inscreve no corpo. Se os sexos envelhecem diferente, é porque o mundo lhes pediu coisas diferentes. A cultura esculpiu a biologia, e a biologia respondeu à cultura.
Talvez, então, a pergunta certa não seja por que envelhecemos diferente, mas o que cada um de nós faz com o tempo que lhe foi dado. A mulher recebe mais anos e mais dor. O homem, menos anos e menos cuidado de si. Ambos recebem a mesma tarefa: aprender a viver com consciência, para envelhecer com dignidade. O corpo envelhece de um jeito ou de outro. A alma, essa tem a escolha de sentir o corpo envelhecer melhor.