O idadismo: um preconceito antigo e persistente
Em 1969, o gerontólogo Robert N. Butler presenciou, em um bairro de Washington (EUA), a forte oposição de moradores à construção de um residencial para pessoas idosas de baixa renda. As justificativas utilizadas eram semelhantes às do racismo: estigmatização, segregação espacial e aversão ao envelhecimento. Foi nesse contexto que Butler cunhou o termo ageism (em português, idadismo), inspirado em “racism”. Ele o definiu como “o processo sistemático de estereotipar e discriminar pessoas pelo fato de serem velhas”.
Uma população que envelhece rapidamente
Quase 57 anos depois, o que mudou? A população envelheceu significativamente. No Brasil, a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024. Pela primeira vez, o número de idosos (60 anos ou mais) superou o de jovens entre 15 e 24 anos. Eles representam cerca de 15,6% da população brasileira e movimentam aproximadamente R$ 2 trilhões por ano na economia.
O preconceito que continua invisível
No entanto, o idadismo continua sendo um dos preconceitos mais universais e persistentes. Frases como “ninguém quer uma casa de repouso no bairro” soam duras, mas refletem a realidade de uma sociedade egoísta, egocêntrica e pouco solidária, pautada pelo individualismo. Muitos, mesmo envelhecendo, negam a própria velhice: “velho é sempre o outro”.
Entre a legislação e a realidade
Cidades se autointitulam “amigas dos idosos”, mas, na prática, são intolerantes e discriminatórias. O Estatuto do Idoso (Lei nº 151652025) existe, mas frequentemente permanece apenas no papel. Enquanto atos de racismo, sexismo e LGBTQfobia são punidos, o idadismo ainda passa, em grande medida, impune — apesar de a lei prever sanções para discriminação por idade.
A normalização da intolerância
Esse preconceito está tão naturalizado em nossa cultura e instituições que episódios semelhantes aos de 1969 passam despercebidos. Tornamo-nos mais tolerantes com o que não nos afeta diretamente. O direito à vida digna, à qualidade de vida, ao cuidado e à proteção parece valer apenas para si mesmo.
Essa mentalidade se confirma quando episódios recentes de rejeição a projetos para idosos em bairros de São Paulo ocorrem impunemente, e ainda são amparados por interpretações legais que protegem os interesses dos mais poderosos.
Violência silenciosa contra quem envelhece
Essas manifestações de intolerância não são isoladas. Abandonos, maus-tratos físicos, psicológicos e financeiros contra idosos são corriqueiros — muitos deles subnotificados e cometidos justamente por familiares ou responsáveis. Vivemos em uma sociedade tecnologicamente avançada, mas emocionalmente defasada.
Até quando?
Até quando a justiça permanecerá cega? Será preciso que toda a população envelheça para que uma sociedade menos violenta possa florescer? Ou mesmo assim continuaremos a discriminar os mais frágeis?
Seguimos vivendo em uma cidade e em uma sociedade profundamente desigual. Afinal, somos humanos.